Com
total certeza Breaking Bad é uma das melhores séries já feitas,
não pelas cenas de ação inesquecíveis, ou pelos seus “plot
twist”, mas sim pelo drama vivido pelos personagens e as mudanças
ocorridas com eles ao longo da jornada. Essencialmente a obra mostra
a mudança de Walter White, como ele se transformou de um modesto
professor de química para um mestre do crime. Diferente das séries
que mostram os antagonistas, Breaking Bad não glorifica o mal, não
relativiza a maldade, não a redime, sua estrutura roteirística
apresenta as maldades como algo ruim em si, que tem graves
consequências, onde podemos afirmar que são irreversíveis. A
maldade em que praticamos não finda em nós, ela gera consequências
naqueles que estão próximo, o pecado nos prejudica e atinge o
próximo. O Rei Acabe, por conta de seu egoísmo, prejudicou Nabote e
o matou (1Rs 21.1-16), os olhos lascivos de Davi geraram a morte de
Urias (2Sm 11.1-27), entre outros exemplos, onde terceiros foram
atingidos pelo pecado alheio, e que as consequências foram amargas –
Acabe morto em batalha e amaldiçoado por Elias, e Davi com uma casa
destruída. Breaking Bad segue essa lógica, os pecados de Walter
White destrói a sua alma (Rm 1.24), sua família, a vida de muitas
pessoas que cruzaram seu caminho, e a daqueles que se viciaram na
metanfetamina.
No
início da série vemos um químico talentosíssimo, ganhador de
vários prémios acadêmicos, um verdadeiro perito em sua área,
porém, por contratempos acabou se tornando um professor de química
da educação básica. A obra não desmerece a profissão de
professor, mas sim mostra que Walter não era feliz nela, pois
julgava que seu potencial era para algo maior. Em um flashback, no
episódio 13 da terceira temporada, vemos que Walter era ambicioso,
buscava sempre aquilo que era grande, porém isso se perdeu com as
desilusões, com os problemas. Em dado momento da história, Walter
diz que em sua juventude, quando precisava de dinheiro, vendeu sua
parte da empresa que ele fundou junto com Eliot e Gretchen, The Grey
Matter, que se tornou bilionária e de enorme sucesso. Isso trouxe um
enorme ressentimento em sua vida, pois ele desperdiçou seu potencial
por apenas 5 mil dólares. O primeiro episódio da série mostra que
Mr. White era um homem quebrado, sem potência de vida, infeliz em
todos os sentidos, reagindo sempre, nunca sendo ativo. Porém isso
muda com a descoberta de seu câncer no pulmão, ele decide deixar de
ser um homem reativo, e passa a ser um sujeito ativo, que exerce sua
potência perante a vida. A decisão de produzir metanfetamina é
para se provar como um homem que mostra seu poder de ação, para ele
se sentir vivo Guardar dinheiro para sua família foi uma desculpa
criada por Walter, um artifício psicológico, que serve como
legitimador dessa decisão de entrar no mundo do crime.
Desde
o primeiro episódio, onde Walter produz o primeiro lote de
metanfetamina, que comete os primeiros crimes, ele já muda sua
atitude perante a vida, ele se torna mais encorajado, mais vivo. Ao
final do episódio Walter toma a iniciativa de fazer amor com sua
esposa, coisa que aparentava não acontecer a muito tempo, isso já
mostra sua mudança. Durante sua trajetória, Walter White se
transforma em Heinsenberg, se adapta ao mundo do crime, se amolda
aquele contexto. O sucesso de seu produto, sua capacidade estratégica
e de negócios, o torna mais vivo, apaga seus ressentimentos mais
profundos. Sua maldade vai se intensificando no decorrer de sua
jornada, igual sua capacidade de destruir todos que estão a sua
volta. Mas ele segue no mundo do crime, utiliza seu artifício
psicológico para provar a si mesmo que os frutos de seus atos serão
nobres. Em Ética a Nicômaco, Aristóteles afirma que a
virtude não é algo natural do homem, mas que por meio do hábito,
da repetição de vários atos virtuosos, adquirimos as virtudes. Na
filosofia aristotélica, o agir bem é escolher meios virtuosos, e
não apenas ter uma finalidade boa, mas ter um meio de atingir que
seja justo e bom. Walter White não entende as coisas dessa forma,
ele julga buscar o bem – deixar dinheiro para a sua família –
por meios escusos, pois mente, comete homicídios, sonega, destrói
sua família, difundi uma substância viciante que destrói a vida de
muitas famílias, etc.
A
única possível ética que Walter White segue é a nietzscheana,
antes do câncer ele vivia como um degenerado, como um sujeito
reativo perante a vida (isso seguindo uma linguagem da filosofia de
Nietzsche), após a descoberta de sua doença terminal, ele muda de
atitude perante a vida, ele quer viver intensamente cada segundo,
aproveitar cada momento. O Heinsenberg nasce com essa atitude
diferente, de um homem castrado para um homem ativo, que exerce
poder. E no mundo do crime, onde sua fama aumenta, seu orgulho
cresce, e ele descobre o verdadeiro propósito existencial. Em uma
linguagem nietzscheana, Walter White se liberta das amarras morais,
se torna forte no mundo da vida, onde ele pratica toda sua potência,
toda sua vontade. Porém essa atitude realça seu orgulho, ele se vê
cada vez mais seduzido pelo poder, seu foco não é mais o dinheiro,
seu foco se tonou a criação de um império, onde a metanfetamina
azul é uma extensão dele, Walter queria um império onde ele era o
principal, queria ser Deus. As consequências desse egoísmo foi a
morte, seja de seus inimigos, de pessoas próximas, daqueles que o
estavam atrapalhando, e por fim a morte de sua família. Walter amava
mais a si mesmo do que amava sua família, pois pela sua sede de
poder, por sua vontade de ser reconhecido como grande, cometeu várias
coisas horríveis.
Orgulho
e egoísmo são duas coisas que acompanharam Walter durante a série,
Heinsenberg foi sua criação, no qual ele usou como matéria-prima
esses dois pecados. Sua sede por ser grande, por ser bom em algo, por
ser único, gerou a morte de Jane – e consequentemente a provocação
de um acidente de avião – a corrupção de Jesse Pinkman, a morte
de Hank, o fim de sua família, entre outras coisas. Quando testado
seu poder, ele deixava claro que “ele era o perigo”, e que seu
nome era grande (“diga meu nome!”). Sempre quando questionado, o
orgulho de Walter se feria, seja em seu produto, em sua capacidade em
prover para sua família, ou em suas estratégias, ele queria ser e
parecer forte e sucedido. Na tradição cristão, aquele que é mais
elevado são os humildes, aquele que quer ser o primeiro deve ser
aquele que serve (Mt 20.26), e Walter entende que aquele que quer ser
o primeiro deve ser amado, adorado e respeitado. Se o foco fosse
deixar dinheiro para sua família, ele a serviria trabalhando de forma
justa, aceitando o emprego de Eliot, porém ele quis ser orgulhoso, e
cada vez mais o poder o seduziu, e montar um império se tornou seu
foco. São Martinho de Tours (316-397 d.C), ao dividir sua capa com
um mendigo que passava frio, nos mostra que o orgulho e o egoísmo de
nada vale, que é muito mais importante ajudar o próximo. Mas o
poder concentrado em suas mãos, a seu sucesso, fez Walter White
abandonar toda a empatia, toda a consideração pelo próximo,
destruindo assim a vida de muitas pessoas, incluindo sua família, no
qual ele jurou defender até o fim.
Breaking
Bad é uma série que mostra como o pecado gera consequências graves
e irreversíveis, a prova de que um abismo chama outro (Sl 42.7), que
o orgulho e o egoísmo são características maléficas, que geram
coisas terríveis, e que precisamos cessar de nossa vida. Poder,
dinheiro, prazeres, são coisas que elevam nosso ego, que nos faz
pensar demais em si, e Walter White caiu na tentação de se seduzir
pela sua própria grandeza e ambição. Heinsenberg é uma criação
neatzcheana de Walter, para se fazer forte na vida, para sair da
vontade castrada, e se impor. Se levarmos a sério a filosofia de
Nietzsche, acabaremos como Walter White, que desprezou toda a
humildade, e quis ser grande, quis ser forte, e no fim acabou
decepcionando a todos, e destruindo várias vidas.
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