Mesmo
que a 7° e a 8° temporada de The Walking Dead sejam as mais
detestadas, elas nos trazem grandes questionamentos a respeito de
governança, Estado, propriedade, liberdade e vida. As diversas
comunidades que surgiram no pós-apocalipse são autárquicas,
conseguem subsistir em alimentação, formando locais auto-geridos,
onde os indivíduos estão ali para construir algo maior que eles:
uma civilização. Toda civilização começa quando os sujeitos saem
do estado do “eu” e entende que existe um “nós”, algo que
transcende suas vontades imediatas. Roger Scruton, em As Vantagens
do Pessimismo, mais
especificamente no capítulo 3, percebe como nasce a liberdade de
fato. No começo do capítulo ele diferencia a antropologia de
Rousseau e de Hegel, o primeiro entende que o homem, em estado
natural, é bom e livre; o segundo entende que essa “liberdade” é
apenas no campo do “eu”, ou seja, o sujeito pode fazer o que ele
quiser, desde que outro mais forte não apareça e sujeite ele pela
força. A liberdade real,
nesse sentido, só pode ser efetiva
na esfera do “nós” onde formulamos leis, costumes, instituições,
para nos regularem,
para as guerras cessarem, para garantir a liberdade alheia. “A
liberdade é genuína somente quando limitada pelas leis e
instituições que nos tornam responsáveis uns pelos outros, que nos
obrigam a reconhecer a liberdade dos outros e também a tratar os
outros com respeito”
(p.49).
As
comunidades no The Walking Dead, Hilltop, Alexandria e o Reino, são
locais que erigiram
muros para se livrar das ameaças exteriores (zumbis e ladrões), que
reconhecem em cada indivíduo que reside nesses locais um direito a
vida, liberdade e propriedade. Lembrando bem o ensaio de Frédéric
Bastiat,
A Lei,
que seguindo
um argumento de John Locke, onde Deus deu a vida para o homem,
dotando-o de faculdades mentais para utilizar os recursos, dados por
Deus, ao seu favor. A vida é um direito de todos, a utilização de
recursos, onde o homem, por meio da razão, cultivou, faz com que
aquilo seja sua propriedade. Estão as comunidades, na série, servem
para proteger esses direitos naturais, inatos, de preservação da
vida, daquilo que é dele, e de sua liberdade.
Existe
uma forte correlação com a
história dos EUA e essas comunas da série, principalmente com a
mentalidade desenvolvida no norte, a chamada Nova Inglaterra. Ocupada
por puritanos fugidos da perseguição religiosa, no norte foram
estabelecidas colônias longe do Estado Inglês, onde um espírito de
igualdade foi formado. Essas colônias seguiam o Pacto de Maryflower,
onde as decisões seriam tomadas coletivamente. Uma
nova sociedade estava sendo erguida, com novas leis, diferentes das
inglesas – vide a colônia de Connecticut,
com
o
sistema de leis formulado em 1650 seguindo
o Antigo Testamento, punindo com morte o adultério, a idolatria, o
estupro, etc. Assim
como na série, novas leis, e um sistema de autogestão, estavam
sendo buscado para a
criação de
uma nova sociedade, que
respeita os direitos básicos do homem.
Porém
isso é solapado em partes, pois um grupo de sobreviventes, que se
autodenominam “os salvadores”, liderados por um quase rei,
chamado Negan, entram em cena, agindo como agentes regulatórios, e
de proteção. Eles se veem como sujeitos capazes de manter a ordem,
e fora deles, fora do sistema estabelecido
por eles, só
existe o
caos.
Em troca de “proteção”, eles pedem 50% dos recursos de cada
comunidade, e essa proteção é forçada, caso haja resistência,
punições (mortes) são executadas.
Para mostrar que eles estão no comando, é de lei que eles matem
alguém, para mostrar que o poder dos salvadores não é brincadeira.
Ironicamente
as armas de seus vassalos são confiscadas, para não haver
resistência no domínio, deixando os grupos desprotegidos.
Negan diz que “pessoas são recursos”, pois seu sistema de
confisco, de “proteção”, de poder, só pode existir se houver
pessoas trabalhando para isso. Ele usa pessoas para confiscar a
propriedade alheia, outras para produzir coisas a serem confiscadas,
outras para manter uma defesa sólida. No fim Negan e os salvadores
agem como o Estado, que visa te proteger, que tem o monopólio da
força, que confisca a propriedade de
terceiros,
a liberdade, vezes matando, para gerar a “ordem”.
Obviamente
a resistência à Negan ocorre, ela começa com o armamento das
comunidades, que se aliam, para enfrentar esse mal maior.
As
armas, muitas vezes, são instrumento de opressão, mas tem serventia
para resistir o mal, para estabelecer a justiça, para promover a
paz. Rick Grimes, que lidera a resistência, discursando para os
combatentes das três comunidades diz “o
mundo é nosso por direito, quem quiser viver nele em paz e justiça,
encontrará um ponto em comum conosco. Porém, aquele que, matando,
tomando à força,
querendo o mundo apenas para si, deverá
ser eliminado!”.
A
série segue com a vitória da aliança entre as comunidades, com a
prisão perpetua de Negan, e
o fim do império dos salvadores. Só pode existir liberdade com o
fim do uso da força, quando o “eu” é subjugado, e o “nós”,
o respeito a dignidade do próximo, é consolidada.
Novamente,
existe uma correlação entre
a ficção e a realidade, no caso, com
essa guerra da
série,
e a Independência dos EUA, pois existe um paralelo entre a
Inglaterra e os salvadores, com as comunidades e as colônias
norte-americanas.
Exércitos ingleses, a partir da segunda metade do século XVIII, se
estabeleceram nos EUA contra os franceses, na Guerra dos 7 anos, e
permaneceram ali após as batalhas, sendo pagos por recursos dos
colonos. A
permanência dos
exércitos era
para a “proteção” dos americanos, mas em essência era um poder
do rei para vigiar as colônias. Após 1763 várias leis foram
promulgadas da metrôpole para serem cumpridas à risca pelas
colônias,
elas, em essência, serviam
para tomar os recursos dos americanos (como
a Lei do Açúcar
e a do Selo),
e controlá-los.
Na
Declaração de Independência,
redigida em 4 de Julho de 1776, formulada pelo Congresso Continental
da Filadélfia
(uma aliança entre as 13 colônias independentes), diz que os
ingleses começaram
a interferir na autonomia local, deixando exércitos ingleses na
América, e
confiscando à força, os recursos econômicos das colônias.
Porém
os ingleses não aceitaram a independência das colônias, havendo
conflito. Vários
revoltas começaram a surgir, grupos milicianos (como Os Filhos da
Liberdade) formados por americanos comuns, os
minutemen,
foram
a base para a vitória dos americanos. A Declaração de
Independência
diz que
o governo serve para assegurar a vida, liberdade e propriedade, e que
os ingleses estavam fazendo o contrário disso, por isso que eles
precisavam ser destituídos.
Claramente
vemos que The Walking Dead se inspira na história, e nos valores
fundantes dos EUA, que a construção de uma civilização vem com o
respeito ao próximo, aos direitos inatos do semelhante. Na história
americana vemos uma sociedade onde direito negativo (que pune a
agressão contra a vida e a propriedade) vigora, onde a opressão é
punida, que o armamento serve para manter a paz. Na história
ficcional de The Walking Dead também vemos isso se reforçar, a
ficção imita a vida, e a última se reforça
por meio da primeira, inculcando a mentalidade basilar dos EUA.