sábado, 7 de março de 2020

Reflexões sobre 1 Pedro 5.8


"Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar" (1Pe 5.8)

Ser “sóbrio” é ver a realidade como ela é, se nos enchermos de álcool, nossas faculdades se tornam debilitadas, e se nos apegarmos fortemente, vitalmente, em algo que não seja Deus, nosso senso da realidade será menor. Amar a Deus sobre todas as coisas é ver a realidade como ela é, pois Deus criou tudo, a bondade Dele está contida na natureza (Sl 19.1-6), nas coisas boas que os homens criam (Tg 1.17; 1Tl 5.21; Tt 1.15), portanto podemos aproveitar as coisas que existem, mas reconhecendo que tudo vem de Deus. Ser sóbrio é não se deixar dominar por nada (1Co 6.12), apenas por Deus, pois segundo Seus princípios, podemos aproveitas as coisas com sabedoria. A “vigilância” é necessária para não divinizarmos nada, pois se fizermos isso, excessos virão, já que quando adoramos algo que não seja Ele, somos totalmente bêbados, guiado pelas nossas paixões. Toda idolatria é uma adoração de si mesmo, pois todo ídolo é algo que afaga o sujeito, que traz para ele bons sentimentos, coisas boas a curto prazo, já que adorar o Deus verdadeiro é se dar para Ele. Devemos vigiar para não idolatrar, para que os pecados gerados por essa atitude não tome nosso ser, e para fugirmos das oportunidades de idolatrar.

Nossos adversários não são ideologias, pessoas, políticos, mas sim o diabo, aquele que quer nos tirar do caminho correto. O diabo busca entrar em nossas vidas, busca nos tentar com os nossos desejos, pois todo o pecado vem de nós, e ele nos tenta com nós mesmos (Tg 1.12-15;4.1-4). O leão possui uma força tremenda, ele é o rei da selva, e assim como ele ruge, o diabo lança uma voz forte em nossas mentes, tentando nos controlar através de nossos desejos, mas o fim não é algo bom, mas sim nos devorar, nos dominar completamente, tirar nossa comunhão com Ele. O diabo não tem estima por ninguém, não vê as pessoas em sua individualidade, quer qualquer um, não porque ama, mas para ter uma quantia maior de dominados, quer “devorar alguém”. Ao contrário disso. Deus se importa com o indivíduo, somos insubstituíveis (Lc 15), Ele conhece cada um de nós, nos ama independente do que fazemos, e quer que ajudamos a completar sua obra (Rm 12).

Somos convertidos, passamos pelo processo de mudança, de renovação da mente, porém ainda estamos sujeitos a sermos devorados pelo diabo, que ruge em nossas mentes, intensificando a maldade que há em nossos corações, e nos tirando da comunhão com Deus. Devemos vigiar para não cairmos em idolatria, para não ver a realidade de maneira torpe, e assim não sermos devorados pelo inimigo. Nossa adoração precisa ser mais firme, focada, nossa mente precisa ser dominada por Deus (Rm 12.2; Fl 4.8; Gl 5.16), para que nossos desejos não nos domine. Desfrutar das coisas dessa vida não é errado (Ec 9.7-10), mas focar nisso é egoísmo, adorar a Ele é nos negar (Mt 16.24), fazer a Vontade de Deus antes do nosso conforto (Jo 4.34). Que possamos nos livrar de nós, sermos sóbrios, vigilantes para focarmos nossa adoração em Deus.

The Walking Dead e a história americana: construindo uma civilização


Mesmo que a 7° e a 8° temporada de The Walking Dead sejam as mais detestadas, elas nos trazem grandes questionamentos a respeito de governança, Estado, propriedade, liberdade e vida. As diversas comunidades que surgiram no pós-apocalipse são autárquicas, conseguem subsistir em alimentação, formando locais auto-geridos, onde os indivíduos estão ali para construir algo maior que eles: uma civilização. Toda civilização começa quando os sujeitos saem do estado do “eu” e entende que existe um “nós”, algo que transcende suas vontades imediatas. Roger Scruton, em As Vantagens do Pessimismo, mais especificamente no capítulo 3, percebe como nasce a liberdade de fato. No começo do capítulo ele diferencia a antropologia de Rousseau e de Hegel, o primeiro entende que o homem, em estado natural, é bom e livre; o segundo entende que essa “liberdade” é apenas no campo do “eu”, ou seja, o sujeito pode fazer o que ele quiser, desde que outro mais forte não apareça e sujeite ele pela força. A liberdade real, nesse sentido, só pode ser efetiva na esfera do “nós” onde formulamos leis, costumes, instituições, para nos regularem, para as guerras cessarem, para garantir a liberdade alheia. A liberdade é genuína somente quando limitada pelas leis e instituições que nos tornam responsáveis uns pelos outros, que nos obrigam a reconhecer a liberdade dos outros e também a tratar os outros com respeito” (p.49).

As comunidades no The Walking Dead, Hilltop, Alexandria e o Reino, são locais que erigiram muros para se livrar das ameaças exteriores (zumbis e ladrões), que reconhecem em cada indivíduo que reside nesses locais um direito a vida, liberdade e propriedade. Lembrando bem o ensaio de Frédéric Bastiat, A Lei, que seguindo um argumento de John Locke, onde Deus deu a vida para o homem, dotando-o de faculdades mentais para utilizar os recursos, dados por Deus, ao seu favor. A vida é um direito de todos, a utilização de recursos, onde o homem, por meio da razão, cultivou, faz com que aquilo seja sua propriedade. Estão as comunidades, na série, servem para proteger esses direitos naturais, inatos, de preservação da vida, daquilo que é dele, e de sua liberdade.

Existe uma forte correlação com a história dos EUA e essas comunas da série, principalmente com a mentalidade desenvolvida no norte, a chamada Nova Inglaterra. Ocupada por puritanos fugidos da perseguição religiosa, no norte foram estabelecidas colônias longe do Estado Inglês, onde um espírito de igualdade foi formado. Essas colônias seguiam o Pacto de Maryflower, onde as decisões seriam tomadas coletivamente. Uma nova sociedade estava sendo erguida, com novas leis, diferentes das inglesas – vide a colônia de Connecticut, com o sistema de leis formulado em 1650 seguindo o Antigo Testamento, punindo com morte o adultério, a idolatria, o estupro, etc. Assim como na série, novas leis, e um sistema de autogestão, estavam sendo buscado para a criação de uma nova sociedade, que respeita os direitos básicos do homem.

Porém isso é solapado em partes, pois um grupo de sobreviventes, que se autodenominam “os salvadores”, liderados por um quase rei, chamado Negan, entram em cena, agindo como agentes regulatórios, e de proteção. Eles se veem como sujeitos capazes de manter a ordem, e fora deles, fora do sistema estabelecido por eles, existe o caos. Em troca de “proteção”, eles pedem 50% dos recursos de cada comunidade, e essa proteção é forçada, caso haja resistência, punições (mortes) são executadas. Para mostrar que eles estão no comando, é de lei que eles matem alguém, para mostrar que o poder dos salvadores não é brincadeira. Ironicamente as armas de seus vassalos são confiscadas, para não haver resistência no domínio, deixando os grupos desprotegidos. Negan diz que “pessoas são recursos”, pois seu sistema de confisco, de “proteção”, de poder, só pode existir se houver pessoas trabalhando para isso. Ele usa pessoas para confiscar a propriedade alheia, outras para produzir coisas a serem confiscadas, outras para manter uma defesa sólida. No fim Negan e os salvadores agem como o Estado, que visa te proteger, que tem o monopólio da força, que confisca a propriedade de terceiros, a liberdade, vezes matando, para gerar a “ordem”.

Obviamente a resistência à Negan ocorre, ela começa com o armamento das comunidades, que se aliam, para enfrentar esse mal maior. As armas, muitas vezes, são instrumento de opressão, mas tem serventia para resistir o mal, para estabelecer a justiça, para promover a paz. Rick Grimes, que lidera a resistência, discursando para os combatentes das três comunidades diz “o mundo é nosso por direito, quem quiser viver nele em paz e justiça, encontrará um ponto em comum conosco. Porém, aquele que, matando, tomando à força, querendo o mundo apenas para si, deverá ser eliminado!”. A série segue com a vitória da aliança entre as comunidades, com a prisão perpetua de Negan, e o fim do império dos salvadores. Só pode existir liberdade com o fim do uso da força, quando o “eu” é subjugado, e o “nós”, o respeito a dignidade do próximo, é consolidada.

Novamente, existe uma correlação entre a ficção e a realidade, no caso, com essa guerra da série, e a Independência dos EUA, pois existe um paralelo entre a Inglaterra e os salvadores, com as comunidades e as colônias norte-americanas. Exércitos ingleses, a partir da segunda metade do século XVIII, se estabeleceram nos EUA contra os franceses, na Guerra dos 7 anos, e permaneceram ali após as batalhas, sendo pagos por recursos dos colonos. A permanência dos exércitos era para a “proteção” dos americanos, mas em essência era um poder do rei para vigiar as colônias. Após 1763 várias leis foram promulgadas da metrôpole para serem cumpridas à risca pelas colônias, elas, em essência, serviam para tomar os recursos dos americanos (como a Lei do Açúcar e a do Selo), e controlá-los. Na Declaração de Independência, redigida em 4 de Julho de 1776, formulada pelo Congresso Continental da Filadélfia (uma aliança entre as 13 colônias independentes), diz que os ingleses começaram a interferir na autonomia local, deixando exércitos ingleses na América, e confiscando à força, os recursos econômicos das colônias. Porém os ingleses não aceitaram a independência das colônias, havendo conflito. Vários revoltas começaram a surgir, grupos milicianos (como Os Filhos da Liberdade) formados por americanos comuns, os minutemen, foram a base para a vitória dos americanos. A Declaração de Independência diz que o governo serve para assegurar a vida, liberdade e propriedade, e que os ingleses estavam fazendo o contrário disso, por isso que eles precisavam ser destituídos.

Claramente vemos que The Walking Dead se inspira na história, e nos valores fundantes dos EUA, que a construção de uma civilização vem com o respeito ao próximo, aos direitos inatos do semelhante. Na história americana vemos uma sociedade onde direito negativo (que pune a agressão contra a vida e a propriedade) vigora, onde a opressão é punida, que o armamento serve para manter a paz. Na história ficcional de The Walking Dead também vemos isso se reforçar, a ficção imita a vida, e a última se reforça por meio da primeira, inculcando a mentalidade basilar dos EUA.

Walter White: pecado gerando mais pecado

Com total certeza Breaking Bad é uma das melhores séries já feitas, não pelas cenas de ação inesquecíveis, ou pelos seus “plot twist”, mas sim pelo drama vivido pelos personagens e as mudanças ocorridas com eles ao longo da jornada. Essencialmente a obra mostra a mudança de Walter White, como ele se transformou de um modesto professor de química para um mestre do crime. Diferente das séries que mostram os antagonistas, Breaking Bad não glorifica o mal, não relativiza a maldade, não a redime, sua estrutura roteirística apresenta as maldades como algo ruim em si, que tem graves consequências, onde podemos afirmar que são irreversíveis. A maldade em que praticamos não finda em nós, ela gera consequências naqueles que estão próximo, o pecado nos prejudica e atinge o próximo. O Rei Acabe, por conta de seu egoísmo, prejudicou Nabote e o matou (1Rs 21.1-16), os olhos lascivos de Davi geraram a morte de Urias (2Sm 11.1-27), entre outros exemplos, onde terceiros foram atingidos pelo pecado alheio, e que as consequências foram amargas – Acabe morto em batalha e amaldiçoado por Elias, e Davi com uma casa destruída. Breaking Bad segue essa lógica, os pecados de Walter White destrói a sua alma (Rm 1.24), sua família, a vida de muitas pessoas que cruzaram seu caminho, e a daqueles que se viciaram na metanfetamina.

No início da série vemos um químico talentosíssimo, ganhador de vários prémios acadêmicos, um verdadeiro perito em sua área, porém, por contratempos acabou se tornando um professor de química da educação básica. A obra não desmerece a profissão de professor, mas sim mostra que Walter não era feliz nela, pois julgava que seu potencial era para algo maior. Em um flashback, no episódio 13 da terceira temporada, vemos que Walter era ambicioso, buscava sempre aquilo que era grande, porém isso se perdeu com as desilusões, com os problemas. Em dado momento da história, Walter diz que em sua juventude, quando precisava de dinheiro, vendeu sua parte da empresa que ele fundou junto com Eliot e Gretchen, The Grey Matter, que se tornou bilionária e de enorme sucesso. Isso trouxe um enorme ressentimento em sua vida, pois ele desperdiçou seu potencial por apenas 5 mil dólares. O primeiro episódio da série mostra que Mr. White era um homem quebrado, sem potência de vida, infeliz em todos os sentidos, reagindo sempre, nunca sendo ativo. Porém isso muda com a descoberta de seu câncer no pulmão, ele decide deixar de ser um homem reativo, e passa a ser um sujeito ativo, que exerce sua potência perante a vida. A decisão de produzir metanfetamina é para se provar como um homem que mostra seu poder de ação, para ele se sentir vivo Guardar dinheiro para sua família foi uma desculpa criada por Walter, um artifício psicológico, que serve como legitimador dessa decisão de entrar no mundo do crime.

Desde o primeiro episódio, onde Walter produz o primeiro lote de metanfetamina, que comete os primeiros crimes, ele já muda sua atitude perante a vida, ele se torna mais encorajado, mais vivo. Ao final do episódio Walter toma a iniciativa de fazer amor com sua esposa, coisa que aparentava não acontecer a muito tempo, isso já mostra sua mudança. Durante sua trajetória, Walter White se transforma em Heinsenberg, se adapta ao mundo do crime, se amolda aquele contexto. O sucesso de seu produto, sua capacidade estratégica e de negócios, o torna mais vivo, apaga seus ressentimentos mais profundos. Sua maldade vai se intensificando no decorrer de sua jornada, igual sua capacidade de destruir todos que estão a sua volta. Mas ele segue no mundo do crime, utiliza seu artifício psicológico para provar a si mesmo que os frutos de seus atos serão nobres. Em Ética a Nicômaco, Aristóteles afirma que a virtude não é algo natural do homem, mas que por meio do hábito, da repetição de vários atos virtuosos, adquirimos as virtudes. Na filosofia aristotélica, o agir bem é escolher meios virtuosos, e não apenas ter uma finalidade boa, mas ter um meio de atingir que seja justo e bom. Walter White não entende as coisas dessa forma, ele julga buscar o bem – deixar dinheiro para a sua família – por meios escusos, pois mente, comete homicídios, sonega, destrói sua família, difundi uma substância viciante que destrói a vida de muitas famílias, etc.

A única possível ética que Walter White segue é a nietzscheana, antes do câncer ele vivia como um degenerado, como um sujeito reativo perante a vida (isso seguindo uma linguagem da filosofia de Nietzsche), após a descoberta de sua doença terminal, ele muda de atitude perante a vida, ele quer viver intensamente cada segundo, aproveitar cada momento. O Heinsenberg nasce com essa atitude diferente, de um homem castrado para um homem ativo, que exerce poder. E no mundo do crime, onde sua fama aumenta, seu orgulho cresce, e ele descobre o verdadeiro propósito existencial. Em uma linguagem nietzscheana, Walter White se liberta das amarras morais, se torna forte no mundo da vida, onde ele pratica toda sua potência, toda sua vontade. Porém essa atitude realça seu orgulho, ele se vê cada vez mais seduzido pelo poder, seu foco não é mais o dinheiro, seu foco se tonou a criação de um império, onde a metanfetamina azul é uma extensão dele, Walter queria um império onde ele era o principal, queria ser Deus. As consequências desse egoísmo foi a morte, seja de seus inimigos, de pessoas próximas, daqueles que o estavam atrapalhando, e por fim a morte de sua família. Walter amava mais a si mesmo do que amava sua família, pois pela sua sede de poder, por sua vontade de ser reconhecido como grande, cometeu várias coisas horríveis.

Orgulho e egoísmo são duas coisas que acompanharam Walter durante a série, Heinsenberg foi sua criação, no qual ele usou como matéria-prima esses dois pecados. Sua sede por ser grande, por ser bom em algo, por ser único, gerou a morte de Jane – e consequentemente a provocação de um acidente de avião – a corrupção de Jesse Pinkman, a morte de Hank, o fim de sua família, entre outras coisas. Quando testado seu poder, ele deixava claro que “ele era o perigo”, e que seu nome era grande (“diga meu nome!”). Sempre quando questionado, o orgulho de Walter se feria, seja em seu produto, em sua capacidade em prover para sua família, ou em suas estratégias, ele queria ser e parecer forte e sucedido. Na tradição cristão, aquele que é mais elevado são os humildes, aquele que quer ser o primeiro deve ser aquele que serve (Mt 20.26), e Walter entende que aquele que quer ser o primeiro deve ser amado, adorado e respeitado. Se o foco fosse deixar dinheiro para sua família, ele a serviria trabalhando de forma justa, aceitando o emprego de Eliot, porém ele quis ser orgulhoso, e cada vez mais o poder o seduziu, e montar um império se tornou seu foco. São Martinho de Tours (316-397 d.C), ao dividir sua capa com um mendigo que passava frio, nos mostra que o orgulho e o egoísmo de nada vale, que é muito mais importante ajudar o próximo. Mas o poder concentrado em suas mãos, a seu sucesso, fez Walter White abandonar toda a empatia, toda a consideração pelo próximo, destruindo assim a vida de muitas pessoas, incluindo sua família, no qual ele jurou defender até o fim.

Breaking Bad é uma série que mostra como o pecado gera consequências graves e irreversíveis, a prova de que um abismo chama outro (Sl 42.7), que o orgulho e o egoísmo são características maléficas, que geram coisas terríveis, e que precisamos cessar de nossa vida. Poder, dinheiro, prazeres, são coisas que elevam nosso ego, que nos faz pensar demais em si, e Walter White caiu na tentação de se seduzir pela sua própria grandeza e ambição. Heinsenberg é uma criação neatzcheana de Walter, para se fazer forte na vida, para sair da vontade castrada, e se impor. Se levarmos a sério a filosofia de Nietzsche, acabaremos como Walter White, que desprezou toda a humildade, e quis ser grande, quis ser forte, e no fim acabou decepcionando a todos, e destruindo várias vidas.