sábado, 7 de março de 2020

The Walking Dead e a história americana: construindo uma civilização


Mesmo que a 7° e a 8° temporada de The Walking Dead sejam as mais detestadas, elas nos trazem grandes questionamentos a respeito de governança, Estado, propriedade, liberdade e vida. As diversas comunidades que surgiram no pós-apocalipse são autárquicas, conseguem subsistir em alimentação, formando locais auto-geridos, onde os indivíduos estão ali para construir algo maior que eles: uma civilização. Toda civilização começa quando os sujeitos saem do estado do “eu” e entende que existe um “nós”, algo que transcende suas vontades imediatas. Roger Scruton, em As Vantagens do Pessimismo, mais especificamente no capítulo 3, percebe como nasce a liberdade de fato. No começo do capítulo ele diferencia a antropologia de Rousseau e de Hegel, o primeiro entende que o homem, em estado natural, é bom e livre; o segundo entende que essa “liberdade” é apenas no campo do “eu”, ou seja, o sujeito pode fazer o que ele quiser, desde que outro mais forte não apareça e sujeite ele pela força. A liberdade real, nesse sentido, só pode ser efetiva na esfera do “nós” onde formulamos leis, costumes, instituições, para nos regularem, para as guerras cessarem, para garantir a liberdade alheia. A liberdade é genuína somente quando limitada pelas leis e instituições que nos tornam responsáveis uns pelos outros, que nos obrigam a reconhecer a liberdade dos outros e também a tratar os outros com respeito” (p.49).

As comunidades no The Walking Dead, Hilltop, Alexandria e o Reino, são locais que erigiram muros para se livrar das ameaças exteriores (zumbis e ladrões), que reconhecem em cada indivíduo que reside nesses locais um direito a vida, liberdade e propriedade. Lembrando bem o ensaio de Frédéric Bastiat, A Lei, que seguindo um argumento de John Locke, onde Deus deu a vida para o homem, dotando-o de faculdades mentais para utilizar os recursos, dados por Deus, ao seu favor. A vida é um direito de todos, a utilização de recursos, onde o homem, por meio da razão, cultivou, faz com que aquilo seja sua propriedade. Estão as comunidades, na série, servem para proteger esses direitos naturais, inatos, de preservação da vida, daquilo que é dele, e de sua liberdade.

Existe uma forte correlação com a história dos EUA e essas comunas da série, principalmente com a mentalidade desenvolvida no norte, a chamada Nova Inglaterra. Ocupada por puritanos fugidos da perseguição religiosa, no norte foram estabelecidas colônias longe do Estado Inglês, onde um espírito de igualdade foi formado. Essas colônias seguiam o Pacto de Maryflower, onde as decisões seriam tomadas coletivamente. Uma nova sociedade estava sendo erguida, com novas leis, diferentes das inglesas – vide a colônia de Connecticut, com o sistema de leis formulado em 1650 seguindo o Antigo Testamento, punindo com morte o adultério, a idolatria, o estupro, etc. Assim como na série, novas leis, e um sistema de autogestão, estavam sendo buscado para a criação de uma nova sociedade, que respeita os direitos básicos do homem.

Porém isso é solapado em partes, pois um grupo de sobreviventes, que se autodenominam “os salvadores”, liderados por um quase rei, chamado Negan, entram em cena, agindo como agentes regulatórios, e de proteção. Eles se veem como sujeitos capazes de manter a ordem, e fora deles, fora do sistema estabelecido por eles, existe o caos. Em troca de “proteção”, eles pedem 50% dos recursos de cada comunidade, e essa proteção é forçada, caso haja resistência, punições (mortes) são executadas. Para mostrar que eles estão no comando, é de lei que eles matem alguém, para mostrar que o poder dos salvadores não é brincadeira. Ironicamente as armas de seus vassalos são confiscadas, para não haver resistência no domínio, deixando os grupos desprotegidos. Negan diz que “pessoas são recursos”, pois seu sistema de confisco, de “proteção”, de poder, só pode existir se houver pessoas trabalhando para isso. Ele usa pessoas para confiscar a propriedade alheia, outras para produzir coisas a serem confiscadas, outras para manter uma defesa sólida. No fim Negan e os salvadores agem como o Estado, que visa te proteger, que tem o monopólio da força, que confisca a propriedade de terceiros, a liberdade, vezes matando, para gerar a “ordem”.

Obviamente a resistência à Negan ocorre, ela começa com o armamento das comunidades, que se aliam, para enfrentar esse mal maior. As armas, muitas vezes, são instrumento de opressão, mas tem serventia para resistir o mal, para estabelecer a justiça, para promover a paz. Rick Grimes, que lidera a resistência, discursando para os combatentes das três comunidades diz “o mundo é nosso por direito, quem quiser viver nele em paz e justiça, encontrará um ponto em comum conosco. Porém, aquele que, matando, tomando à força, querendo o mundo apenas para si, deverá ser eliminado!”. A série segue com a vitória da aliança entre as comunidades, com a prisão perpetua de Negan, e o fim do império dos salvadores. Só pode existir liberdade com o fim do uso da força, quando o “eu” é subjugado, e o “nós”, o respeito a dignidade do próximo, é consolidada.

Novamente, existe uma correlação entre a ficção e a realidade, no caso, com essa guerra da série, e a Independência dos EUA, pois existe um paralelo entre a Inglaterra e os salvadores, com as comunidades e as colônias norte-americanas. Exércitos ingleses, a partir da segunda metade do século XVIII, se estabeleceram nos EUA contra os franceses, na Guerra dos 7 anos, e permaneceram ali após as batalhas, sendo pagos por recursos dos colonos. A permanência dos exércitos era para a “proteção” dos americanos, mas em essência era um poder do rei para vigiar as colônias. Após 1763 várias leis foram promulgadas da metrôpole para serem cumpridas à risca pelas colônias, elas, em essência, serviam para tomar os recursos dos americanos (como a Lei do Açúcar e a do Selo), e controlá-los. Na Declaração de Independência, redigida em 4 de Julho de 1776, formulada pelo Congresso Continental da Filadélfia (uma aliança entre as 13 colônias independentes), diz que os ingleses começaram a interferir na autonomia local, deixando exércitos ingleses na América, e confiscando à força, os recursos econômicos das colônias. Porém os ingleses não aceitaram a independência das colônias, havendo conflito. Vários revoltas começaram a surgir, grupos milicianos (como Os Filhos da Liberdade) formados por americanos comuns, os minutemen, foram a base para a vitória dos americanos. A Declaração de Independência diz que o governo serve para assegurar a vida, liberdade e propriedade, e que os ingleses estavam fazendo o contrário disso, por isso que eles precisavam ser destituídos.

Claramente vemos que The Walking Dead se inspira na história, e nos valores fundantes dos EUA, que a construção de uma civilização vem com o respeito ao próximo, aos direitos inatos do semelhante. Na história americana vemos uma sociedade onde direito negativo (que pune a agressão contra a vida e a propriedade) vigora, onde a opressão é punida, que o armamento serve para manter a paz. Na história ficcional de The Walking Dead também vemos isso se reforçar, a ficção imita a vida, e a última se reforça por meio da primeira, inculcando a mentalidade basilar dos EUA.

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